22 março, 2009

O Verão de '42.

Quando assisti pela primeira vez O Verão de 42 (Summer of ’42) fiquei fascinado pelo personagem Ermie, um adolescente sonhador, romântico, puro, ingênuo e sensível.
Para quem não viu o filme, Ermie e mais dois amigos estão passando o verão numa pequena cidade na costa da Flórida e em busca de suas primeiras experiências sexuais. Dos outros dois amigos, um é um garoto bem menor, completamente desajeitado, amedrontado e desconhecedor de qualquer vestígio ou possibilidade de relacionamento sexual. Pouco importante tanto na aventura quanto no roteiro.
O terceiro personagem é o Oscy. Esperto, cheio de malícia e esquemas para tentar a descoberta do mistério que os fascina e amedronta. Anda com uma camisinha no bolso para dar sorte.
Ermie apaixona-se por Dorothy, personagem de Jennifer O'Neill, uma belíssima mulher que vive sozinha numa casa espetada à beira de uma escarpa e de frente para o sempre mal humorado Atlântico Norte. Dorothy é casada com um soldado, que está na Europa em Guerra e acaba morrendo em combate, abrindo caminho para que Ermie realize seu sonho impossível. Em uma magistral cena cinematográfica, Dorothy arrasada e desnorteada com o telegrama recebido onde o Governo do Estados Unidos lamentava informar etc. acaba recebendo a inesperado visita de Ermie e entre lágrimas e uma carência abissal, faz sexo, amor e saudade ao mesmo tempo, com ele.
Na época, achei o Oscy um exemplo de insensibilidade e machismo, interessado apenas em dar um jeito de comer alguém, desprezando completamente sentimentos e atropelando emoções.
O tempo passou e agora encontro Summer of ’42 em DVD, abandonado numa locadora que liquida seu estoque. Compro e assisto de novo. E acho o Ermie um grande ingênuo, masoquista e sofredor, enquanto vejo no Oscy o sábio de toda a história. Se a intenção era descobrir o sexo, que isto tivesse sido feito e fim de papo.
Objetividade, sem envolvimentos desnecessários e emoções para arrastar pelo resto da vida. Freud aplaudiria de pé. Isto sim é que significa saber o que se quer da vida. Por isso ele rapidamente fatura a linda loirinha Miriam e experimenta o sexo até ficar trôpego, quase desfalecendo em plena areia de Malibu.
Como Ermie e Oscy não mudaram nada, visto serem personagens de ficção gravadas em 35 mm de celulóide, portanto mudei eu. Os mais críticos e sensíveis dirão que perdi a emoção, os valores acima do sexo e do descartável, aqueles só revelados pelo amor, pelo sentimento, pela entrega total.
Acho que não os perdi, mas tenho certeza de que os gastei bastante. Milhares de páginas de poemas lidos e escritos, de canções cantadas e choradas, quilômetros e mais quilômetros de terra, céu ou mar atravessados em busca de um par de olhos ou de um sorriso, incontáveis horas olhando o telefone e a caixa de correspondência parecem ter esgotado em grande parte as minhas possibilidades de ser –novamente- Ermie.
Porque junto com o amor vem o desamor, a tristeza, a dor de ver tudo se acabar, a certeza de que não é preciso tanto sofrimento para se saber capaz de amar. Como diz o velho Vinícius, é muito triste quando se vê tudo morrer e ainda existe o amor que mente para esconder que o amor presente não tem mais nada para dizer. Para continuar com o apoio da música brasileira, troco de disco e deixo o complemento para Chico Buarque, que diz hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito, exijo respeito, não sou mais um sonhador. Antes de amar qualquer pessoa é preciso que amemos a nós mesmo, caso contrário estaremos anulando qualquer possibilidade futura de querer bem.
Há um limite para o querer bem e este limite é que permite aos que o descobrem, seguir querendo. Parece um contra-senso, mas tem lógica. Se alguém abre mão de tudo por amor, estará abrindo mão de si próprio e portanto da própria validade de seus atos e sentimentos.
Oscy gostaria muito de ir para a cama com Dorothy, mas sabia que isto só seria possível pelo caminho do sofrimento e preferiu não abrir mão de nada, nem da alegria em suas férias e menos ainda se afastar do seu objetivo. Estava certo.
Se você pretende passar a sua vida no alto de uma montanha, não tem sentido se apaixonar por uma sereia. O amor não é cego nem mudo. Talvez nos deixe um pouco burros, mas ele sempre nos mostra claramente a possibilidade de sermos felizes ou não.
Daí em diante, é uma questão de auto-estima. Neste verão de 2009, fico com Oscy.

14 março, 2009

Carta Anônima

Escreves em vermelho, a cor da paixão ou quem sabe, da tragédia. Por isso, me refugio no Georgia, corpo 14, a fonte anônima de um computador cheio de recordações. Memória é apenas o hardware. A vida é software. Não há o que perdoar pelo tempo que se passou entre minha carta e a sua. A rampa do amor carece de dedicação e percebo que estás ladeira acima, embora com o freio de mão puxado, o que só faz tornar mais árdua e lenta a subida. esta altura você já percebeu que estou com ciúme. Sou assim. Possessivo, exclusivista, egoísta centralizador, insuportável. Ácido, mordaz, irônico, dominador, perigoso. Os diferentes são aqueles que fisicamente não se parecem conosco. Os semelhantes possuem o mesmo tom de pele, o mesmo olhar, a mesma velocidade. A mente e suas preferências costumam moldar o corpo. Por isso é fácil, quando se está atento, reconhecer quem gosta de cool jazz e quem é axé. Quem lê Manoel Puig e quem lê Caras. Quem faz do amor um bote salva-vidas e quem faz dele, o próprio mar. Estive procurando você em Montevidéo. A cidade parece uma cápsula, onde o tempo permanece perplexo. A qualquer instante um ônibus para o passado pode atravessar seu caminho e é preciso ter cuidado para não se perder entre espanhóis que ainda tentam dominar qualquer coisa, ouro sem brilho, bocas sem dentes, seios exagerados, cabelos negros como a definitiva noite que se espalha en Latino America. Soy loco por ti de amores. Capinam é um gênio. Não considero indispensável a compatibilidade total para que a vida se torne mais suave. O amor é um grande espelho, mas é quase nada. É feito de coisas voláteis, miudezas, indícios, possibilidades. Coisas que se enroscam com o elevador lotado, o sinal fechado, o despertador quebrado, o imposto territorial. Crie espaço; é fácil. Primeiro, deixe que toquem Fantasmão; não espere que ninguém se preocupe com a força centrífuga. Esqueça a luta armada, a bala perdida, Lula, o mensalão, Dilma Neves Serra (assim mesmo, sem vírgulas) e os grampos. Depois, faça sexo, o mais que puder; durma e acorde na hora certa; tome uma aspirina por dia; ria, ria muito. Se isto resolve alguma coisa? Não sei. Nunca consegui fazer nem a primeira parte. Por que estou com ciúmes de você ? Nunca ouvi tua voz, nunca senti o teu olhar, nunca minha mão tocou em teus cabelos, jamais escutamos juntos As Times Goes By. Somos até aqui, amigos virtuais e amigos costumam ficar felizes com a felicidade do outro. Acho que estou feliz por você ter encontrado alguém com quem possa flutuar. Mas estou com ciúme. É estranho. Eu sou estranho. Estou me sentindo cansado. Tenho trabalhado bastante, durmo muito pouco, não tenho férias há mais de 5 anos. Encontro muita dificuldade para relaxar. As coisas me deixam em eterno estado de vigília. Qualquer coisa. Até o lazer. Leio compulsivamente, como compulsivamente, olho para o aparelho de som e não me animo a escutar o que gosto. Por que toda a mídia nos ajuda a identificar situações de estresse e nunca nos diz como sair delas? Não gosto da medicina. Incomoda-me seu princípio de ter compromisso com os métodos e não com os resultados. Acho que pouco sabemos sobre a mecânica da vida. Muito menos os médicos, sempre às voltas com laboratórios. Por isso não os procuro. Lembro Drummond: “do lado esquerdo carrego os meus mortos, por isso ando meio de lado.” Acho que sei porque tenho ciúmes de você. Na verdade, não é bem ciúmes, naquele sentido físico de não querer que ninguém te toque. É uma espécie de frustração por não poder conviver com alguém com tantos paralelos de personalidade e cultura, sabendo que há alguém que pode fazer isso sempre que desejar. Talvez por nos acharmos raros, não no sentido vaidoso, mas no aspecto da configuração. Aí dá uma ponta desta coisa que chamo de ciúme. Já enchi sua paciência, imagino, falando deste assunto. Esqueça. Não vou viajar neste meio de ano. Tinha programado uma ida até Buenos Aires para pesquisar um pouco Borges e comprar alguns originais em espanhol, mas tive que refazer orçamentos atendendo a um pedido cordial de Obama e portanto, nada de viagens. No máximo uma esticada até Mar Grande. Mas vale a pena. A sensação de quase não ter dívidas é muito tranqüilizadora. Mesmo que custe 2 litros de café e 60 Camels by day. Sinto-me por vezes também hesitante diante do comportamento das pessoas e me pego pensando: não é possível que todas estas pessoas sejam obtusas e eu o único sensato. Tem que ser ao contrário. Elas é que estão sabendo viver e eu aqui detonando meus neurônios com bobagens como sentido da vida, origem de tudo, finalidade, por aí vai. Mas aí, entra uma loteria perigosíssima: se a nossa energia vital se restringir a este planeta, é claro que eles estão certos. Temos que viver da maneira mais confortável possível por aqui e tudo isto se torna perda de tempo. Mas, se a energia seguir seguindo? Ela precisa estar com um mínimo de purificação para ir adiante, senão jamais chegará ao núcleo central. Nesta segunda hipótese, nos estaremos certos. No filme Antes de Partir, Morgan Freeman e Jack Nicholson fazem dois portadores terminais de câncer. Morgan acredita em Deus e na vida eterna; Jack não. Em determinado momento do filme eles discutem sobre isso e Jack encerra a conversa dizendo: "Sabe qual é a vantagem que eu levo sobre você? Se eu estiver errado, eu saio ganhando." É uma verdade estranha, mas é uma verdade. Já te disse que coleciono sapos? Não os vivos, mas os de qualquer material inanimado. Tenho mais de 20 sapos espalhados em casa. Em cerâmica, pedra, vidro, metal, gesso etc. Tenho sapos de várias origens geográficas e de todas as formas. Um deles, oriental, deve ter sempre na boca uma moeda, o que segundo os orientais fará com que a fortuna esteja sempre presente. Outro, minúsculo, deve ser mantido sempre perto de dinheiro, pois fará com que este se multiplique. Nenhum entretanto existe que garanta qualquer tipo de sentimento. Por vezes me sinto um dos sapos. Mas, sapo mesmo, sem qualquer vocação para príncipe ou o menor vestígio de princesas pra me beijar. There’s no future in it, Eve; we never should begin’it, Eve. Certa vez perguntaram a Jorge Luis Borges qual o significado da frase “Ninguém o viu desembarcar na unânime noite”, que abre o seu magistral conto As Ruínas Circulares. O que seria a unânime noite? O período obscuro do peronismo ou a sangria dos governos militares? Quem seria o passageiro que desembarcava na noite? Algum herói? Um idealista? Meio surpreendido, Borges respondeu que a frase não significava rigorosamente nada. Ele apenas achara ser uma boa frase para começar um conto. É também, uma boa história para terminar uma carta.

14 fevereiro, 2009

Fragmentos

Pedaços de pensamento, aparentemente sem conexão alguma, frutos de um certo ócio da temporada, quando os neurônios acordam mais tarde, se movimentam lentos sob os 40º centígrados do ambiente e perguntam meio sonolentos se já acabou o horário de verão e começou a temporada da Fórmula 1. Que nada. Ainda falta o Carnaval para o Brasil acordar e quem sabe, ler alguma coisa.
O SILÊNCIO

Há pouco arrumava uns recortes de jornais e alguns cadernos de cultura da Folha, que insisto em guardar e encontrei uma matéria especial sobre Jorge Luis Borges, um escritor argentino já falecido (morreu aos 93 de idade e cego desde os 50) e que me abriu as portas do pensamento livre. Leio e guardo tudo dele ou sobre ele, pois “El Brujo” sem dúvida foi o escritor mais importante do século XX. Nesta matéria está reproduzida uma carta escrita por Borges, onde em certo trecho ele diz: “...uma moça a quem fiz a corte em Palma e da qual cada silencio era uma obra de arte”. Acho que o conceito de silencio concebido, trabalhado como uma obra de arte, é uma verdadeira descoberta borgiana e de uma profundidade absoluta. Somente momentos especiais merecem obras de arte a respeito, sejam elas músicas, poemas, pinturas ou silêncios.
A VÍRGULA

Existe um poema de Lord Byron, criado por volta de 1800, chamado Não Mais Passearemos, onde em certo momento ele escreve: “chega um instante em que o coração precisa tomar fôlego e o amor, descansar.” Embora todo o poema seja admirável, o que mais me fascina nele, é a vírgula. Acho que nunca, em tudo que já li, encontrei uma vírgula tão perfeita, capaz de dar ao verbo a respiração exata e concreta, para seu significado de repouso.
OS ASTROS

Leio num horóscopo para o meu signo, o seguinte: “Seu momento é de definições, não só em relação ao amor, mas a tudo o que você busca para a sua vida. Reflita bastante antes de agir.” Não acho, nem poderia achar, nada sobre a vontade dos astros. Eles são soberanos em suas órbitas. Sei apenas que eles definem um pouco do que somos e podem sinalizar algumas coisas ao longo da vida. Quanto a refletir bastante antes de agir, me parece um conselho aplicável a todos os signos especialmente àqueles que regem as vidas dos que mandam neste país.
A MÚSICA
Gosto de ir buscar na música, palavras que parecem retratar fatias da vida, (em inglês é mais bonito: slices of life) como se a arte insistisse em imitá-la, mesmo sabendo que isto não tem serventia, como tem a porta da rua para o indesejado e para a filosofia popular. Na noite deserta desta casa ouço alguém que ao longe escuta Maria Bethânia dizendo ser “a chuva que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma, a sombra da voz, você não me pega, você nem chega a me ver. O cheiro dos livros desesperados não sou eu; seu olho me olha, mas não me pode alcançar”. Mesmo porque quase ninguém rezou a novena de Dona Canô, talvez não tenha sequer existido o mendigo Joãozinho Beija Flor, mas suas pegadas estão em todas as ruas enlameadas da vida.
O SONHO

O tempo da gente já se consumiu? Os barcos na enseada se alinham em paralelas onduladas, apontam um lugar qualquer no horizonte, por onde passou silencioso numa noite qualquer um vapor barato ou um luxuoso transatlântico. O lusitano comandante tinha razão. Dali pra frente só podia piorar para que todos continuássemos a flutuar. Segundo ele, "tudo que flutua balança e se deixou de balançar é porque já não flutua mais". O amor é assim um pouco oceânico e pode deixar na gente aquela estranha sensação de ter ido a Goree só porque pensamos em comprar a passagem e nos lançar ao mar. Daí, a cada vez que vemos uma foto da ilha ou do amor ficamos em dúvida. Estive lá ou não estive?
AS PALAVRAS

Antigamente, quando os astronautas iam até a Lua, havia um instante muito tenso na viagem. Era o momento em que eles se viam obrigados a fazer uma órbita em torno dela, para perder velocidade e poder descer até o solo. Durante esta órbita, um momento crítico do vôo, eles ficavam por cerca de seis minutos por trás da Lua, sobrevoando aquela face que nos é oculta e sem qualquer possibilidade de comunicação com a Terra. Durante aqueles seis absolutamente silenciosos minutos, se algo de errado acontecesse, eles somente poderiam abortar a missão e voltar para casa abatidos (como na música de Vanzollini) ou se espatifarem no terreno misterioso e intocado, feito um pacote bêbado (como na música de Chico Buarque). Por alguma razão me sinto assim escrevendo agora, como se estivesse no lado escuro da Lua, de onde minhas palavras não chegam a lugar nenhum.
O CINEMA

Existem algumas cenas de cinema, que permanecem por muito tempo em nossas memórias. Guardo comigo a visão de Dusty Hofmann mancando pelas madrugadas de Manhattan em Midnight Cowboy; do seminarista ajudante de Sean Connery sendo seduzido por uma aldeã, sobre sacos de batatas no mosteiro em O Nome da Rosa; de Max Von Sidow encharcado de suor ao sonhar navegando num rio de cadáveres em A Hora do Lobo, de Bergmann. Uma cena entretanto me marca mais profundamente. Não se trata de nenhum grande filme, sequer é uma cena surpreendente, porém por alguma razão, entre outras ela se destaca na minha memória emocional. É em Viver Por Viver, quando Ives Montand, resolve sair de uma reclusão voluntária num chalé nas montanhas nevadas de Chamonix, após uma paixão impossível. Ele caminha até o carro parado do lado de fora e coberto pela neve. Antes de entrar no carro ele se debruça e com o braço retira a neve acumulada sobre o pára-brisa. Através do vidro, dentro do carro, ele vê sentada a mulher que imaginava nunca mais rever e jamais poder ter ao seu lado. Cresce a música, sobem os créditos, acaba o filme.
Fora do cinema, a realidade tenta nos ensinar que não existem paixões impossíveis por não existirem mais paixões. Que homens e mulheres hoje se relacionam. Tem um caso. Ou ficam. Será ? Não acredito. Creio não haver mais com tanta freqüência a “paixão impossível”, porque a sociedade se tornou mais complacente, mais compreensiva, talvez até cansada de ver romeus e julietas se multiplicarem. Não existem mais tanta impossibilidade para o amor quanto existia antes. Casamentos se desfazem, distâncias são vencidas, enormes diferenças de idade ignoradas, barreiras sociais e religiosas caem por terra, culturas distintas são assimiladas, tudo em nome do amor. Tudo isso praticamente eliminou a impossibilidade, não a paixão. Hoje ela apenas não maltrata tanto quanto antes. O que impede o amor agora entre duas pessoas, é apenas a misteriosa energia que emana de cada uma delas e as fazem vibrar em sintonias semelhantes ou diferentes, mantendo-as mais ou menos afastadas. Ou mais ou menos próximas. Mas, esta é também a mesma energia que as une de forma inapelável, às vezes subitamente, às vezes lentamente, mas sempre irresistível. O mesmo cinema nos mostra isso.
Como Marcelo Mastroianni e Shirley Maclaine em Paixão de Outono, que esperaram por 40 anos ela ficar viúva, para no mesmo dia do funeral confessarem um amor latente. Ou Clint Eastwood e Maryl Strep, em As Pontes de Madison, que em uma semana amaram-se para toda a vida. Ou Jeremy Iron e Juliette Binoche em Perdas e Danos, que desistiram de lutar contra a inexplicável energia. Talvez a vida real não tenha o mesmo charme que a das telas, mas uma imita a outra e os finais felizes nem sempre parecem ser assim para todos. Mas são, para quem percebe que o amor é bem mais forte que a lógica. Não importa quem acaba com quem, se serão felizes para sempre ou se seguirão caminhos diversos depois do amor. Ou do filme. O que importa é que de uma forma ou de outra, ele fez a história. The end.
O AMOR
O enigma de Coleridge jamais saiu do meu painel luminoso, piscando cadenciado na noite infinita: “e se você dormisse, e se você sonhasse, e se no sonho você fosse ao paraíso e colhesse uma rosa, e se ao acordar a rosa estivesse em suas mãos; e então?” Meu guia e mapa, ele me orienta em direção a esta rosa misteriosa, a este fragmento de paraíso que podemos conquistar sem sair do lugar, apenas com o coração aberto ao amor. E então? A pergunta ilumina a espaçonave, atravessa suas blindadas escotilhas e se lança no espaço qual cometa vermelho, meio botão de rosa, meio coração ferido, espalhando às vezes pétalas, às vezes gotas de sangue, no universo sem limites.
AS CONEXÕES

Aprendi com as Profecias Celestinas, que não existem coincidências, que nada acontece por casualidade. Acredito nesta tese e estou sempre atento a tudo que possa parecer acidental em minha vida. Acho que o silencio, a vírgula, os astros, a música, o sonho, as palavras, o cinema, o amor, juntos, dizem alguma coisa. Claro que tudo é muito vago e misterioso. Sou quase um desconhecido para mim mesmo e sei que nada no mundo pode neste instante, fazer com que qualquer coisa tenha sentido, possibilidade e objetivo. Mas sei também que somos capazes de criar apenas os desencontros. Os encontros, estes só precisam do tempo, porque são inevitáveis. Como o silencio, a virgula, a música, os astros etc. etc. etc.

29 janeiro, 2009

Chico: Amores serão sempre amáveis (Final)

Seria portanto Chico Buarque de Hollanda um machista irredutível e asqueroso, que só vê a mulher como uma entidade a serviço do homem, sob sua orientação e guarda ?
Nem tanto. Ou pelo menos nem sempre. A partir da moça feia iludida com o som da banda Chico Buarque tratou de forma bem melhor as mulheres em inúmeras ocasiões, todas elas de uma beleza difícil de ser igualada.
A habilidade jamais superada por qualquer compositor vivo ou morto, em lidar com as palavras da língua portuguesa, permitiu a Chico Buarque escrever coisas como ...ela faz que não dá conta de sua graça tão singela, o pessoal se desaponta, vai pro mar, levanta a vela.
Esta belíssima frase, de uma simplicidade franciscana em sua fluência, uma riqueza barroca em sua imagem e uma complexa erudição em sua construção musical, está em Januária, uma declaração de amor praieira, por uma musa pela qual ...até o mar faz maré cheia pra chegar mais perto dela.
Januária, junto com Carolina parecem traduzir os dois momentos de maior ternura pela mulher em toda a carreira de Chico Buarque. Carolina também trás em sua letra momentos de incrível lirismo. Carolina, nos teus olhos fundos, guardas tanto amor, o amor de todo este mundo (...) Carolina e Januária são momentos de carinho, afago, namoro, cuidado, pureza e inocência.
Outro destes momentos de reverência pela mulher está na simplicidade de Juca, uma composição que até Ari Barroso poderia chamar carinhosamente de sambinha, por sua singeleza e que vale a pena reproduzir a letra inteiramente.
Juca foi autuado em flagrante, como meliante, pois sambava bem diante da janela de Maria, bem no meio da alegria a noite virou dia, o seu luar de prata virou chuva fria, sua serenata não acordou Maria. / Juca ficou desapontado e declarou ao delegado não saber se amor é crime, se samba é pecado e em legítima defesa batucou assim na mesa: o delegado é bamba na delegacia, mas nunca fez samba, nunca viu Maria.
Bonito demais. No decorrer de sua obra, a louvação à mulher não é uma constante, embora o tema acompanhado de todo o universo que o cerca, esteja sempre presente, mesmo ou principalmente, nos instantes de mais intensa politização.
Como em Angélica feita para Zuzu Angel, que enfrentava a ditadura e seus prepostos mal humorados, mal amados, mal educados e mal resolvidos; em busca de seu filho desaparecido nas valas comuns abertas pelo país ou mais provavelmente atirado ao mar desde um decadente avião da Força Aérea, que fazia este tipo de vôo rotineiramente para “defender a Nação da ameaça comunista”. Como se eles não fossem muito piores que qualquer outra ameaça.
Nesta música Chico mescla sua admiração pela coragem de Zuzu (que morreria depois num acidente de carro tão estranho quanto o que matou Juscelino) com uma ternura tristemente respeitosa pela figura feminina. Também vale a pena rever a letra primorosa em sua íntegra.
Quem é essa mulher, que canta tanto este estribilho, só queria embalar meu filho, que mora na escuridão do mar. /Quem é essa mulher, que canta sempre este lamento, só queria lembrar o tormento, que fez o meu filho suspirar. /Quem é essa mulher, que conta sempre o mesmo arranjo, só queria agasalhar meu anjo, e deixar seu corpo descansar. / Quem é essa mulher, que canta como dobram os sinos, queria cantar por seu menino, que ele já não pode mais cantar. /Quem é essa mulher,que canta sempre este estribilho, só queria embalar meu filho, que mora na escuridão do mar.
Este talvez seja um dos momentos mais brilhantes da vertente política da obra de Chico Buarque e uma das raras em que a mulher está presente neste contexto. Aqui ele expõe o lado covarde dos crimes praticados por um grupo de generais desconhecedores de toda a cultura humanista mundial e de seus rumos, ao mesmo tempo em que registra a impotência da mulher como mãe diante de atrocidades como estas, com uma infinita beleza.
Existe um outro momento fascinante desta relação de Chico Buarque com a mulher, quando ele abre talvez, uma porta de emergência para a necessidade de elogiar a figura feminina e dizer o quanto precisa dela, driblando quem sabe a propalada timidez, quem sabe a própria tendência a ser econômico em elogios à mulher. Talvez para dar vazão a uma carência reprimida ele compôs Tanto Amar que também precisa da letra inteira para ser apreciada em sua sutileza inigualável.
Amo tanto e de tanto amar, acho que ela é bonita, tem um olho sempre a boiar e outro que agita. / Tem um olho que não está, meus olhares evita, outro olho a me arregalar, sua pepita. / A metade do seu olhar tá chamando pra luta aflita, a metade quer madrugar na bodeguita. /Se seus olhos eu for cantar, um seu olho me atura, outro olho vai desmanchar, toda a pintura. /Ela pode rodopiar e mudar de figura, a paloma do seu mirar vira miura. /É na soma do seu olhar que eu vou me conhecer inteiro, nasci pra enfrentar o mar, sou faroleiro. / Amo de tanto e de tanto amar, acho que ela acredita, tem um olho a pestanejar e outro me fita. / Suas pernas vão me enroscar num balé esquisito, seus dois olhos vão se encontrar no infinito. / Amo tanto e de tanto amar, em Manágua temos um chico, já pensamos em nos casar, em Porto Rico.
Aí está. Impossível tecer um poema mais surpreendente para celebrar a beleza feminina em uma manifestação pouco atraente, porém ainda assim bela. Somente o talento inconfundível de Chico e sua profunda sensibilidade, para enfrentar o tema de maneira tão arriscada, mergulhar tão fundo no conceito da beleza feminina isenta da forma e voltar de lá com uma obra prima. Sair-se bem de uma empreitada desta entretanto não exige apenas habilidade, mas um sentimento permanente de admiração pela fonte de inspiração.
Um pouco deste sentimento e do encanto diante da possibilidade do amor ou de o homem lutar por ele, emerge na magnífica Futuros Amantes onde, numa das mais brilhantes conceituações a respeito do amor, Chico afirma (...) amores serão sempre amáveis, futuros amantes quiçá se amarão sem saber, com o amor que um dia eu deixei pra você.
Irretocável. A definição “amores serão sempre amáveis” é provavelmente a coisa mais bonita que já se escreveu em língua portuguesa a este respeito. A dupla leitura que ele permite é um primor de síntese e pensamento. Assim Chico Buarque é amável, mesmo quando coloca a mulher em situações pouco privilegiadas, dentro do seu universo criativo.
Essa amabilidade sempre presente no trato com a mulher, mesmo quando a condena a um papel passivo e secundário, revela na obra de Chico Buarque um componente que se acentua quando a melodia se soma à letra: a mágoa.
Chico parece ressentido com as mulheres e suas composições dizem isso queixosa e claramente. ao tempo em que as letras são irônicas, machistas, gozadoras, cínicas ou críticas. Enquanto suas letras fustigam as mulheres, suas notas musicais a tratam com absoluta suavidade e enlevo, quase carinhosamente, talvez mostrando pra elas o quanto ele precisa delas, mesmo assim. Esta provavelmente é a combinação mágica que permitiu a Chico Buarque ir até onde foi no coração feminino.
Se tomarmos como verdadeira a tese nelsonrodriguiana de que toda mulher -exceto as anormais- gosta de apanhar; e se tomarmos também como verdadeira a réplica feminina, de que toda mulher gosta de ser cortejada, Chico matou todas as coelhas, seguindo estes dois princípios simultaneamente. Bater e afagar, num jogo psicológico que desenvolvido até o limite também pelo Marquês de Sade e que subjuga completamente o outro. O cinema e a literatura mostraram isto muito bem em inúmeras ocasiões. Este é também o método dos domadores em circos. Depois do chicote, o torrão de açúcar. As feras preferem obedecer e ganhar um doce que apenas apanhar.
Mas se formos mais benevolentes com Chico, aceitando que ele não seguiu nenhuma fórmula maquiavélica de forma deliberada para subjugar sua platéia feminina e acharmos que ele apenas fez o que lhe deu vontade de fazer, aí então fica evidente que ele falou com todas as suas representantes, batendo em quem gosta de apanhar e afagando quem se enrosca e chega pro lado, querendo agradar, como disse Caymmi (música João Valentão). Agradou a gregas e troianas. Mulheres de Atenas e Januárias, portanto.
(Este estudo de parte da obra de Chico Buarque foi desenvolvido por mim sem qualquer pretensão acadêmica ou analítica. São apenas as impressões de um incondicional admirador do trabalho deste artista único na arte brasileira.)