19 abril, 2009

Full Moon

Surpreende-me a lucidez de certas pessoas diante do que as cerca. Não concordo com algumas das suas verdades, mas respeito profundamente o fato delas serem tão definidas e principalmente autenticas, embora passageiras. Não passageiras em função do tempo vivido nem do tempo por viver, mas porque é da natureza de quem se ocupa com a mecânica da vida ser dinâmico; já que ela própria, a vida, assim o é. A certeza de hoje será a dúvida de amanhã ou talvez o contrário.
Considerações sobre o bem e o mal, Borges, igualdade, conhecimento, sabedoria e outras coisas deste pântano que é o pensamento; me parece bom motivo para abrir debates imaginários. Discordar de Borges, das Escrituras, das letras de John Lennon da utilidade das pirâmides ou de qualquer outra coisa considerada definitiva, não é audácia. Certas pessoas buscam se ajustar ao mundo; outras procuram ajustar o mundo a sí. Portanto, deve-se às segundas qualquer progresso que acontece; caso contrário o mundo permaneceria inalterado indefinidamente. Concordamos portanto em discordar.
Deixemos de lado o céu e o inferno de Borges, já que todo mundo desenvolveu aquilo que chama de modo de ver e sentir o mundo em cima da vida concreta, real; enquanto Borges sobrevoava o terreno do desconhecido, do pós-morte e a visão católica de premio e castigo. Para muita gente a visão do mundo me parece exatamente o que ela própria é: ingênua, romantica e sonhadora. Nada mais belo entretanto que a ingenuidade, o romantismo e o sonho.
Discordamos a partir da possibilidade que se levanta, do bem e do mal serem faces de uma só moeda, na qual a cultura ocidental é o metal que as separa. Não falo do bem que existe em mim quando ajudo uma velhinha a atravessar a rua ou do mal que existe, também em mim, quando troco as etiquetas de preço no supermercado. Falo do Bem e do Mal maísculos. Não consigo ver Ghandi exterminando ingleses em câmaras de gás, nem consigo ver Hitler recebendo refugiados cubanos. Menos ainda, consigo vê-los sentados à mesma mesa, sequer para uma partida de gamão. O essencialmente bom e o essencialmente mau trilham caminhos diferentes em direções diferentes. Estão separados não por uma cultura ocidental, oriental (onde bem e mal também existem e o mau é punido impiedosamente), mediterrânea ou polar: estão separados naturalmente. Eles são anteriores às culturas e não o contrário. Antes que Moisés descesse do Monte Sinai para informar à humanidade que matar é pecado, alguns homens matavam e outros não. Depois que ele fez a sua performance, com aquelas pedras gravadas, raios, trovões e tudo mais; nada mudou. Bem e Mal continuaram existindo espontaneamente e incompatíveis. São moedas diferentes. Não dá para cambiar 6 Maus por 1,5 Bom ou 3 Bons por 12 Maus. Entendo porém, que mesmo vendo as coisas desta forma, surgem duas perguntas fundamentais. A primeira é: há que se conviver com as duas moedas por sermos simplesmente seres humanos ? A segunda é: há que se punir os maus e premiar os bons ? Para mim, ambas as respostas são um audacioso não. A convivência entre o bem e o mal plenos, é desnecessária e naturalmente inviável. São dois anjos de uma asa só, abraçados; mas cada um voando para um lado. Quanto à premiar ou punir, é incoerente e inútil; pois usamos um código para avaliar outro completamente diferente. Cada qual encontra sozinho e a seu modo, aquilo que considera ele próprio, o premio ou a punição. À menos que os seguidores da ética dos monges avaliassem apenas os monges, enquanto os que seguem a ética dos piratas avaliassem apenas os piratas. O que os levaria, involuntariamente, de volta a Borges. Que inclusive tem uma imagem muito bonita para descrever a natureza humana. Ele diz que ela é como um pássaro de quatro asas, que voa simultaneamente para o Norte e o Sul, o Leste e o Oeste.
Sei que esta questão é inesgotável, por isso quero encerrar a discussão. Sou hoje uma pessoa em formação. Avaliando ainda a mim mesmo. Jogando coisas fora e tentando por novas em andamento. Não estou pessimista, não estou amargo, não estou cruel. Estou me reestruturando. Levo a vantagem da experiência adquirida e a desvantagem da perplexidade tardia. Cometi grandes enganos neste tempo e tive que identifica-los e me recuperar deles rapidamente. Quanto às minhas certezas, são barco e velas que mudam de rumo em meio à travessia. Navegar é impreciso, corrigir bruscamente a rota às vezes indispensável, mas é inquietante. Se a literatura não me fizer gente, que ao menos a vida, as marés e suas surpresas o façam.

22 março, 2009

O Verão de '42.

Quando assisti pela primeira vez O Verão de 42 (Summer of ’42) fiquei fascinado pelo personagem Ermie, um adolescente sonhador, romântico, puro, ingênuo e sensível.
Para quem não viu o filme, Ermie e mais dois amigos estão passando o verão numa pequena cidade na costa da Flórida e em busca de suas primeiras experiências sexuais. Dos outros dois amigos, um é um garoto bem menor, completamente desajeitado, amedrontado e desconhecedor de qualquer vestígio ou possibilidade de relacionamento sexual. Pouco importante tanto na aventura quanto no roteiro.
O terceiro personagem é o Oscy. Esperto, cheio de malícia e esquemas para tentar a descoberta do mistério que os fascina e amedronta. Anda com uma camisinha no bolso para dar sorte.
Ermie apaixona-se por Dorothy, personagem de Jennifer O'Neill, uma belíssima mulher que vive sozinha numa casa espetada à beira de uma escarpa e de frente para o sempre mal humorado Atlântico Norte. Dorothy é casada com um soldado, que está na Europa em Guerra e acaba morrendo em combate, abrindo caminho para que Ermie realize seu sonho impossível. Em uma magistral cena cinematográfica, Dorothy arrasada e desnorteada com o telegrama recebido onde o Governo do Estados Unidos lamentava informar etc. acaba recebendo a inesperado visita de Ermie e entre lágrimas e uma carência abissal, faz sexo, amor e saudade ao mesmo tempo, com ele.
Na época, achei o Oscy um exemplo de insensibilidade e machismo, interessado apenas em dar um jeito de comer alguém, desprezando completamente sentimentos e atropelando emoções.
O tempo passou e agora encontro Summer of ’42 em DVD, abandonado numa locadora que liquida seu estoque. Compro e assisto de novo. E acho o Ermie um grande ingênuo, masoquista e sofredor, enquanto vejo no Oscy o sábio de toda a história. Se a intenção era descobrir o sexo, que isto tivesse sido feito e fim de papo.
Objetividade, sem envolvimentos desnecessários e emoções para arrastar pelo resto da vida. Freud aplaudiria de pé. Isto sim é que significa saber o que se quer da vida. Por isso ele rapidamente fatura a linda loirinha Miriam e experimenta o sexo até ficar trôpego, quase desfalecendo em plena areia de Malibu.
Como Ermie e Oscy não mudaram nada, visto serem personagens de ficção gravadas em 35 mm de celulóide, portanto mudei eu. Os mais críticos e sensíveis dirão que perdi a emoção, os valores acima do sexo e do descartável, aqueles só revelados pelo amor, pelo sentimento, pela entrega total.
Acho que não os perdi, mas tenho certeza de que os gastei bastante. Milhares de páginas de poemas lidos e escritos, de canções cantadas e choradas, quilômetros e mais quilômetros de terra, céu ou mar atravessados em busca de um par de olhos ou de um sorriso, incontáveis horas olhando o telefone e a caixa de correspondência parecem ter esgotado em grande parte as minhas possibilidades de ser –novamente- Ermie.
Porque junto com o amor vem o desamor, a tristeza, a dor de ver tudo se acabar, a certeza de que não é preciso tanto sofrimento para se saber capaz de amar. Como diz o velho Vinícius, é muito triste quando se vê tudo morrer e ainda existe o amor que mente para esconder que o amor presente não tem mais nada para dizer. Para continuar com o apoio da música brasileira, troco de disco e deixo o complemento para Chico Buarque, que diz hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito, exijo respeito, não sou mais um sonhador. Antes de amar qualquer pessoa é preciso que amemos a nós mesmo, caso contrário estaremos anulando qualquer possibilidade futura de querer bem.
Há um limite para o querer bem e este limite é que permite aos que o descobrem, seguir querendo. Parece um contra-senso, mas tem lógica. Se alguém abre mão de tudo por amor, estará abrindo mão de si próprio e portanto da própria validade de seus atos e sentimentos.
Oscy gostaria muito de ir para a cama com Dorothy, mas sabia que isto só seria possível pelo caminho do sofrimento e preferiu não abrir mão de nada, nem da alegria em suas férias e menos ainda se afastar do seu objetivo. Estava certo.
Se você pretende passar a sua vida no alto de uma montanha, não tem sentido se apaixonar por uma sereia. O amor não é cego nem mudo. Talvez nos deixe um pouco burros, mas ele sempre nos mostra claramente a possibilidade de sermos felizes ou não.
Daí em diante, é uma questão de auto-estima. Neste verão de 2009, fico com Oscy.

14 março, 2009

Carta Anônima

Escreves em vermelho, a cor da paixão ou quem sabe, da tragédia. Por isso, me refugio no Georgia, corpo 14, a fonte anônima de um computador cheio de recordações. Memória é apenas o hardware. A vida é software. Não há o que perdoar pelo tempo que se passou entre minha carta e a sua. A rampa do amor carece de dedicação e percebo que estás ladeira acima, embora com o freio de mão puxado, o que só faz tornar mais árdua e lenta a subida. esta altura você já percebeu que estou com ciúme. Sou assim. Possessivo, exclusivista, egoísta centralizador, insuportável. Ácido, mordaz, irônico, dominador, perigoso. Os diferentes são aqueles que fisicamente não se parecem conosco. Os semelhantes possuem o mesmo tom de pele, o mesmo olhar, a mesma velocidade. A mente e suas preferências costumam moldar o corpo. Por isso é fácil, quando se está atento, reconhecer quem gosta de cool jazz e quem é axé. Quem lê Manoel Puig e quem lê Caras. Quem faz do amor um bote salva-vidas e quem faz dele, o próprio mar. Estive procurando você em Montevidéo. A cidade parece uma cápsula, onde o tempo permanece perplexo. A qualquer instante um ônibus para o passado pode atravessar seu caminho e é preciso ter cuidado para não se perder entre espanhóis que ainda tentam dominar qualquer coisa, ouro sem brilho, bocas sem dentes, seios exagerados, cabelos negros como a definitiva noite que se espalha en Latino America. Soy loco por ti de amores. Capinam é um gênio. Não considero indispensável a compatibilidade total para que a vida se torne mais suave. O amor é um grande espelho, mas é quase nada. É feito de coisas voláteis, miudezas, indícios, possibilidades. Coisas que se enroscam com o elevador lotado, o sinal fechado, o despertador quebrado, o imposto territorial. Crie espaço; é fácil. Primeiro, deixe que toquem Fantasmão; não espere que ninguém se preocupe com a força centrífuga. Esqueça a luta armada, a bala perdida, Lula, o mensalão, Dilma Neves Serra (assim mesmo, sem vírgulas) e os grampos. Depois, faça sexo, o mais que puder; durma e acorde na hora certa; tome uma aspirina por dia; ria, ria muito. Se isto resolve alguma coisa? Não sei. Nunca consegui fazer nem a primeira parte. Por que estou com ciúmes de você ? Nunca ouvi tua voz, nunca senti o teu olhar, nunca minha mão tocou em teus cabelos, jamais escutamos juntos As Times Goes By. Somos até aqui, amigos virtuais e amigos costumam ficar felizes com a felicidade do outro. Acho que estou feliz por você ter encontrado alguém com quem possa flutuar. Mas estou com ciúme. É estranho. Eu sou estranho. Estou me sentindo cansado. Tenho trabalhado bastante, durmo muito pouco, não tenho férias há mais de 5 anos. Encontro muita dificuldade para relaxar. As coisas me deixam em eterno estado de vigília. Qualquer coisa. Até o lazer. Leio compulsivamente, como compulsivamente, olho para o aparelho de som e não me animo a escutar o que gosto. Por que toda a mídia nos ajuda a identificar situações de estresse e nunca nos diz como sair delas? Não gosto da medicina. Incomoda-me seu princípio de ter compromisso com os métodos e não com os resultados. Acho que pouco sabemos sobre a mecânica da vida. Muito menos os médicos, sempre às voltas com laboratórios. Por isso não os procuro. Lembro Drummond: “do lado esquerdo carrego os meus mortos, por isso ando meio de lado.” Acho que sei porque tenho ciúmes de você. Na verdade, não é bem ciúmes, naquele sentido físico de não querer que ninguém te toque. É uma espécie de frustração por não poder conviver com alguém com tantos paralelos de personalidade e cultura, sabendo que há alguém que pode fazer isso sempre que desejar. Talvez por nos acharmos raros, não no sentido vaidoso, mas no aspecto da configuração. Aí dá uma ponta desta coisa que chamo de ciúme. Já enchi sua paciência, imagino, falando deste assunto. Esqueça. Não vou viajar neste meio de ano. Tinha programado uma ida até Buenos Aires para pesquisar um pouco Borges e comprar alguns originais em espanhol, mas tive que refazer orçamentos atendendo a um pedido cordial de Obama e portanto, nada de viagens. No máximo uma esticada até Mar Grande. Mas vale a pena. A sensação de quase não ter dívidas é muito tranqüilizadora. Mesmo que custe 2 litros de café e 60 Camels by day. Sinto-me por vezes também hesitante diante do comportamento das pessoas e me pego pensando: não é possível que todas estas pessoas sejam obtusas e eu o único sensato. Tem que ser ao contrário. Elas é que estão sabendo viver e eu aqui detonando meus neurônios com bobagens como sentido da vida, origem de tudo, finalidade, por aí vai. Mas aí, entra uma loteria perigosíssima: se a nossa energia vital se restringir a este planeta, é claro que eles estão certos. Temos que viver da maneira mais confortável possível por aqui e tudo isto se torna perda de tempo. Mas, se a energia seguir seguindo? Ela precisa estar com um mínimo de purificação para ir adiante, senão jamais chegará ao núcleo central. Nesta segunda hipótese, nos estaremos certos. No filme Antes de Partir, Morgan Freeman e Jack Nicholson fazem dois portadores terminais de câncer. Morgan acredita em Deus e na vida eterna; Jack não. Em determinado momento do filme eles discutem sobre isso e Jack encerra a conversa dizendo: "Sabe qual é a vantagem que eu levo sobre você? Se eu estiver errado, eu saio ganhando." É uma verdade estranha, mas é uma verdade. Já te disse que coleciono sapos? Não os vivos, mas os de qualquer material inanimado. Tenho mais de 20 sapos espalhados em casa. Em cerâmica, pedra, vidro, metal, gesso etc. Tenho sapos de várias origens geográficas e de todas as formas. Um deles, oriental, deve ter sempre na boca uma moeda, o que segundo os orientais fará com que a fortuna esteja sempre presente. Outro, minúsculo, deve ser mantido sempre perto de dinheiro, pois fará com que este se multiplique. Nenhum entretanto existe que garanta qualquer tipo de sentimento. Por vezes me sinto um dos sapos. Mas, sapo mesmo, sem qualquer vocação para príncipe ou o menor vestígio de princesas pra me beijar. There’s no future in it, Eve; we never should begin’it, Eve. Certa vez perguntaram a Jorge Luis Borges qual o significado da frase “Ninguém o viu desembarcar na unânime noite”, que abre o seu magistral conto As Ruínas Circulares. O que seria a unânime noite? O período obscuro do peronismo ou a sangria dos governos militares? Quem seria o passageiro que desembarcava na noite? Algum herói? Um idealista? Meio surpreendido, Borges respondeu que a frase não significava rigorosamente nada. Ele apenas achara ser uma boa frase para começar um conto. É também, uma boa história para terminar uma carta.

14 fevereiro, 2009

Fragmentos

Pedaços de pensamento, aparentemente sem conexão alguma, frutos de um certo ócio da temporada, quando os neurônios acordam mais tarde, se movimentam lentos sob os 40º centígrados do ambiente e perguntam meio sonolentos se já acabou o horário de verão e começou a temporada da Fórmula 1. Que nada. Ainda falta o Carnaval para o Brasil acordar e quem sabe, ler alguma coisa.
O SILÊNCIO

Há pouco arrumava uns recortes de jornais e alguns cadernos de cultura da Folha, que insisto em guardar e encontrei uma matéria especial sobre Jorge Luis Borges, um escritor argentino já falecido (morreu aos 93 de idade e cego desde os 50) e que me abriu as portas do pensamento livre. Leio e guardo tudo dele ou sobre ele, pois “El Brujo” sem dúvida foi o escritor mais importante do século XX. Nesta matéria está reproduzida uma carta escrita por Borges, onde em certo trecho ele diz: “...uma moça a quem fiz a corte em Palma e da qual cada silencio era uma obra de arte”. Acho que o conceito de silencio concebido, trabalhado como uma obra de arte, é uma verdadeira descoberta borgiana e de uma profundidade absoluta. Somente momentos especiais merecem obras de arte a respeito, sejam elas músicas, poemas, pinturas ou silêncios.
A VÍRGULA

Existe um poema de Lord Byron, criado por volta de 1800, chamado Não Mais Passearemos, onde em certo momento ele escreve: “chega um instante em que o coração precisa tomar fôlego e o amor, descansar.” Embora todo o poema seja admirável, o que mais me fascina nele, é a vírgula. Acho que nunca, em tudo que já li, encontrei uma vírgula tão perfeita, capaz de dar ao verbo a respiração exata e concreta, para seu significado de repouso.
OS ASTROS

Leio num horóscopo para o meu signo, o seguinte: “Seu momento é de definições, não só em relação ao amor, mas a tudo o que você busca para a sua vida. Reflita bastante antes de agir.” Não acho, nem poderia achar, nada sobre a vontade dos astros. Eles são soberanos em suas órbitas. Sei apenas que eles definem um pouco do que somos e podem sinalizar algumas coisas ao longo da vida. Quanto a refletir bastante antes de agir, me parece um conselho aplicável a todos os signos especialmente àqueles que regem as vidas dos que mandam neste país.
A MÚSICA
Gosto de ir buscar na música, palavras que parecem retratar fatias da vida, (em inglês é mais bonito: slices of life) como se a arte insistisse em imitá-la, mesmo sabendo que isto não tem serventia, como tem a porta da rua para o indesejado e para a filosofia popular. Na noite deserta desta casa ouço alguém que ao longe escuta Maria Bethânia dizendo ser “a chuva que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma, a sombra da voz, você não me pega, você nem chega a me ver. O cheiro dos livros desesperados não sou eu; seu olho me olha, mas não me pode alcançar”. Mesmo porque quase ninguém rezou a novena de Dona Canô, talvez não tenha sequer existido o mendigo Joãozinho Beija Flor, mas suas pegadas estão em todas as ruas enlameadas da vida.
O SONHO

O tempo da gente já se consumiu? Os barcos na enseada se alinham em paralelas onduladas, apontam um lugar qualquer no horizonte, por onde passou silencioso numa noite qualquer um vapor barato ou um luxuoso transatlântico. O lusitano comandante tinha razão. Dali pra frente só podia piorar para que todos continuássemos a flutuar. Segundo ele, "tudo que flutua balança e se deixou de balançar é porque já não flutua mais". O amor é assim um pouco oceânico e pode deixar na gente aquela estranha sensação de ter ido a Goree só porque pensamos em comprar a passagem e nos lançar ao mar. Daí, a cada vez que vemos uma foto da ilha ou do amor ficamos em dúvida. Estive lá ou não estive?
AS PALAVRAS

Antigamente, quando os astronautas iam até a Lua, havia um instante muito tenso na viagem. Era o momento em que eles se viam obrigados a fazer uma órbita em torno dela, para perder velocidade e poder descer até o solo. Durante esta órbita, um momento crítico do vôo, eles ficavam por cerca de seis minutos por trás da Lua, sobrevoando aquela face que nos é oculta e sem qualquer possibilidade de comunicação com a Terra. Durante aqueles seis absolutamente silenciosos minutos, se algo de errado acontecesse, eles somente poderiam abortar a missão e voltar para casa abatidos (como na música de Vanzollini) ou se espatifarem no terreno misterioso e intocado, feito um pacote bêbado (como na música de Chico Buarque). Por alguma razão me sinto assim escrevendo agora, como se estivesse no lado escuro da Lua, de onde minhas palavras não chegam a lugar nenhum.
O CINEMA

Existem algumas cenas de cinema, que permanecem por muito tempo em nossas memórias. Guardo comigo a visão de Dusty Hofmann mancando pelas madrugadas de Manhattan em Midnight Cowboy; do seminarista ajudante de Sean Connery sendo seduzido por uma aldeã, sobre sacos de batatas no mosteiro em O Nome da Rosa; de Max Von Sidow encharcado de suor ao sonhar navegando num rio de cadáveres em A Hora do Lobo, de Bergmann. Uma cena entretanto me marca mais profundamente. Não se trata de nenhum grande filme, sequer é uma cena surpreendente, porém por alguma razão, entre outras ela se destaca na minha memória emocional. É em Viver Por Viver, quando Ives Montand, resolve sair de uma reclusão voluntária num chalé nas montanhas nevadas de Chamonix, após uma paixão impossível. Ele caminha até o carro parado do lado de fora e coberto pela neve. Antes de entrar no carro ele se debruça e com o braço retira a neve acumulada sobre o pára-brisa. Através do vidro, dentro do carro, ele vê sentada a mulher que imaginava nunca mais rever e jamais poder ter ao seu lado. Cresce a música, sobem os créditos, acaba o filme.
Fora do cinema, a realidade tenta nos ensinar que não existem paixões impossíveis por não existirem mais paixões. Que homens e mulheres hoje se relacionam. Tem um caso. Ou ficam. Será ? Não acredito. Creio não haver mais com tanta freqüência a “paixão impossível”, porque a sociedade se tornou mais complacente, mais compreensiva, talvez até cansada de ver romeus e julietas se multiplicarem. Não existem mais tanta impossibilidade para o amor quanto existia antes. Casamentos se desfazem, distâncias são vencidas, enormes diferenças de idade ignoradas, barreiras sociais e religiosas caem por terra, culturas distintas são assimiladas, tudo em nome do amor. Tudo isso praticamente eliminou a impossibilidade, não a paixão. Hoje ela apenas não maltrata tanto quanto antes. O que impede o amor agora entre duas pessoas, é apenas a misteriosa energia que emana de cada uma delas e as fazem vibrar em sintonias semelhantes ou diferentes, mantendo-as mais ou menos afastadas. Ou mais ou menos próximas. Mas, esta é também a mesma energia que as une de forma inapelável, às vezes subitamente, às vezes lentamente, mas sempre irresistível. O mesmo cinema nos mostra isso.
Como Marcelo Mastroianni e Shirley Maclaine em Paixão de Outono, que esperaram por 40 anos ela ficar viúva, para no mesmo dia do funeral confessarem um amor latente. Ou Clint Eastwood e Maryl Strep, em As Pontes de Madison, que em uma semana amaram-se para toda a vida. Ou Jeremy Iron e Juliette Binoche em Perdas e Danos, que desistiram de lutar contra a inexplicável energia. Talvez a vida real não tenha o mesmo charme que a das telas, mas uma imita a outra e os finais felizes nem sempre parecem ser assim para todos. Mas são, para quem percebe que o amor é bem mais forte que a lógica. Não importa quem acaba com quem, se serão felizes para sempre ou se seguirão caminhos diversos depois do amor. Ou do filme. O que importa é que de uma forma ou de outra, ele fez a história. The end.
O AMOR
O enigma de Coleridge jamais saiu do meu painel luminoso, piscando cadenciado na noite infinita: “e se você dormisse, e se você sonhasse, e se no sonho você fosse ao paraíso e colhesse uma rosa, e se ao acordar a rosa estivesse em suas mãos; e então?” Meu guia e mapa, ele me orienta em direção a esta rosa misteriosa, a este fragmento de paraíso que podemos conquistar sem sair do lugar, apenas com o coração aberto ao amor. E então? A pergunta ilumina a espaçonave, atravessa suas blindadas escotilhas e se lança no espaço qual cometa vermelho, meio botão de rosa, meio coração ferido, espalhando às vezes pétalas, às vezes gotas de sangue, no universo sem limites.
AS CONEXÕES

Aprendi com as Profecias Celestinas, que não existem coincidências, que nada acontece por casualidade. Acredito nesta tese e estou sempre atento a tudo que possa parecer acidental em minha vida. Acho que o silencio, a vírgula, os astros, a música, o sonho, as palavras, o cinema, o amor, juntos, dizem alguma coisa. Claro que tudo é muito vago e misterioso. Sou quase um desconhecido para mim mesmo e sei que nada no mundo pode neste instante, fazer com que qualquer coisa tenha sentido, possibilidade e objetivo. Mas sei também que somos capazes de criar apenas os desencontros. Os encontros, estes só precisam do tempo, porque são inevitáveis. Como o silencio, a virgula, a música, os astros etc. etc. etc.