Esta fase, em que o homem é vítima da falsidade e da insensibilidade da mulher, atinge o seu momento musical mais esplendoroso em Eu Te Amo, quando ele abandona a ironia e vai diretamente ao tema da culpa feminina, numa das composições musicais mais brilhantes que a cultura brasileira pode registrar, em todos os tempos. Um momento sublime de criação que diz o seguinte:
Ah, se já perdemos a noção da hora, /se juntos já jogamos tudo fora, / me conta agora como hei de partir.
Ah, se ao te conhecer dei pra sonhar, / fiz tantos desvarios, rompi com o mundo, queimei meus navios, / me diz pra onde é que inda posso ir.
Se nós nas travessuras das noites eternas, / já confundimos tanto as nossas pernas,/ diz com que pernas eu devo seguir.
Se entornaste a nossa sorte pelo chão, / se na bagunça do teu coração, / meu sangue errou de veia e se perdeu.
Como, se na desordem do armário embutido, /meu paletó enlaça o teu vestido /e o teu sapato ainda pisa no meu.
Como, se nos amamos feito dois pagãos, /teus seios ainda estão nas minhas mãos, / me explica com que cara eu vou sair.
Não, acho que está te fazendo de tonta, /te dei meus olhos pra tomares conta, /agora conta como hei de partir.

Touché. A perplexidade masculina diante da mulher que não o quer mais embora tenham feito sexo exaustivamente. Coloca-se aí também a responsabilidade jogada sobre ela -mais uma vez- por todo o sofrimento masculino. “Ela” entornou a sorte pelo chão, é “dela” a bagunça no coração, responsável pela perda dos mais elevados sentimentos do homem.
Assim como parece ser dela também a responsabilidade do que possa acontecer a ele; embora ao mesmo tempo ele duvide da sanidade mental ou do caráter dela, supondo que a mesma pode estar fazendo-se de tonta. Mais que visível, absolutamente explícita, é a imagem do inconsciente formada pelo sapato masculino que é pisado pelo o feminino na desordem do armário embutido e na ordem direta do papel de vilã dominadora e má que a mulher exerce no contexto da música.
Freud explicaria é claro, pois que Freud explicaria qualquer coisa; mas o que importa aqui não são os labirintos do inconsciente, sequer as artimanhas do sub-consciente; mas sim os espelhos da alma. Mas destes só quem entendia era Jorge Luis Borges e que nunca pretendeu explicar nada.
Em Valsinha a obrigação da mulher ficar quieta no seu canto é colocada de maneira tão natural que chega a passar quase despercebida no meio do lirismo da composição. (...) olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar (...) pra seu grande espanto convidou-a pra dançar e aí ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar com seu vestido decotado, cheirando a guardado de tanto esperar (...). A mulher silenciosa em seus afazeres, a espera de um comando masculino até para simplesmente ousar se fazer bonita. Inacreditável, mas está gravado.
Chico Buarque ao meu ver atinge o máximo de definição desta visão decepcionante, passiva e submissa da mulher numa música praticamente inédita, da qual não conheço qualquer gravação. Seu título é Umas e Outras. Ouvi o próprio Chico cantá-la muito tempo atrás, uma única vez, no auditório de um programa de TV e por um fenômeno qualquer decorei e jamais esqueci toda a letra. Nesta obra prima de poesia, melodia e ousadia, Chico estabelece um perigoso porém magistralmente resolvido paralelo entre a vida de uma freira e a de uma prostituta. Vale a pena reproduzir a letra na íntegra. Diz o seguinte:
Se uma nunca tem sorriso, /é pra melhor se reservar /e diz que espera o paraíso/ e a hora de desabafar.
A vida é feita de um rosário, /que custa tanto terminar, /por isso as vezes ela cansa
e senta um pouco pra chorar. /Que dia, nossa pra que tanta conta, /já perdi a conta, de tanto rezar.
Se a outra não tem paraíso, /não dá muita importância não, /pois já vendeu o seu sorriso /e fez do mesmo profissão. /A vida é sempre aquela dança, /aonde não se escolhe o par, /por isso às vezes ela cansa /e senta um pouco pra chorar. /Que dia, nossa que vida danada, /tem tanta calçada, pra se caminhar.
Mas toda santa madrugada, /quando uma já sonhou com Deus /e a outra, triste namorada, /coitada já deitou com os seus, /o acaso faz com que estas duas, /que a sorte sempre separou, /se cruzem pela mesma rua, /olhando-se com a mesma dor. Que dia, nossa pra que tanta conta/ já perdi a conta de tanto rezar.
Que dia, cruzes que vida danada /tem tanta calçada pra se caminhar.
Que dia, nossa, que vida comprida /pra que tanta vida /pra gente desanimar.
É simplesmente maravilhoso. A melodia é de uma melancolia inesquecível e de uma beleza incomparável. Esta peça quase desconhecida da arte musical brasileira amplia o universo da submissão feminina na visão de Chico Buarque, mostrando-a não só submissa, mas também conformada. Mais: não apenas dependente de um só homem, do seu homem (pelo menos isso) mas de todos os homens da sociedade ou do homem criador de todos os outros. É a universalização do papel feminino de servir, de uma forma ou outra, ao(s) seus(s) macho(s).
Até que ponto Chico Buarque de Hollanda, o eterno objeto de desejo das mulheres brasileiras, consegue levar o visível machismo embutido em sua obra? Até onde este machismo reflete uma filosofia própria ou é um grito melódico de socorro pelo casamento que se destroça um pouco mais a cada dia? É o que tento responder no próximo capítulo.
2 comentários:
O sr. tem é inveja do incomparável Chico Buarque.
Elisa Maria
Salvador
É isso aê, cara. O bonitão detona a mulherada e ainda come quem quer. Machão e sei não...dizem que ele virou no capeta porque não queria vê a filha casada com onegão Brauw.
Josiel Negão
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